
Yekaterimburg, Rússia, 8 de maio de 2013
Depois de NIZHNY NOVGOROD, seguimos nos trilhos para a próxima cidade, YEKATERINBURG.
Bem, essa viagem não foi tão tranquila para a família de mochila como a anterior: passamos mal no trem –
enjoo, mas por motivos diferentes.
(cada vagão tem a sua “vagomoça”, hehehe – responsável pelo mesmo)
Imagine alguém de joelhos abraçado ao vaso sanitário todo de ferro, de um trem, às 8 da matina, ainda sem dormir (virando a noite) e colocando vodka pra fora junto com suco de tomate, panetone e outras cositas! Vc tá passando mal só de imaginar? Pois pra piorar as coisas, eu ainda tinha que me equilibrar com aquele trem balançado pra lá e pra cá – parecia que estava num navio debaixo de uma tempestade, tudo rodando... e eu ainda ria (pra não chorar) ao ver várias caras barbudas nos vários espelhos do banheiro (e olha que só tinha “um” espelho – tava mal mesmo); eu não acreditava no que estava acontecendo...
A história foi a seguinte: comecei a bater papo com um alemão, companheiro de cabine, quando me convidou para irmos ao vagão-restaurante tomar uma cerveja. Emili ficou na cabine com o Pedrinho.
Apesar de não beber, fui educado e aceitei a latinha que já estava sendo aberta. Conversamos por um tempinho e às 21hs, três russos chegaram e foram sentando ao nosso lado, na pequena mesinha – rindo e meio bêbados. Conversa vai, conversa vem, fizemos amizade – eram 3 militares, Coronéis do Exército russo. Falei que era militar também e cai na graça deles. Foi quando resolvi corresponder ao tratamento e aceitar tomar um “copinho” de vodka que me ofereceram (na verdade, me obrigaram), usando a manobra ‘virar-de-uma-vez-só’, sabe? Foi meu primeiro erro. Não colocaram apenas um dedo (que eu havia pedido), mas encheram o copo até derramar (“P.Q.P.”, pensei, “tô na M.”).
E eu pensando que ia beber aquele copinho bem devagazinho, no estilo “degustando”, totalmente “mauricinho”, batendo papo e perguntando com é a vida nos quartéis russos... P.N.!
Todos se levantaram, fizeram um ritual maluco de respiração e gestos, gritaram várias coisas, viraram o copo e, em microssegundos, “comeram” uma fatia de limão e engoliram mais meio copo de suco de tomate (putz, de onde vieram o limão e o tal suco? Não estavam ali quando...). Antes que eu terminasse meu pensamento, percebi que todos estavam me olhando com espanto/admiração: meu copo era o único ainda cheio... falei um “sorry, my friends!” e virei aquele negócio de uma vez só, sem pensar duas vezes, pra acabar logo, em nome das boas relações Brasil-Rússia. Literalmente, joguei goela abaixo, fazendo o possível para que aquele álcool (pra mim, puro) não deslizasse pela língua (ia sentir o gosto) e caísse diretão lá no fundo da garganta (como se isso fosse adiantar algo...).
Fez-se um silêncio no vagão-restaurante e todos me olhando: abri os olhos (não percebi que tinha fechado), tentei respirar (consegui), olhei pra eles e disse pausadamente, enquanto sentia um calor tomando conta do meu estômago: P...Q...P... (com todas as letras, mas ninguém me entendeu, ainda bem).
Quebraram o silencio. Foi uma gargalhada só. Todos me cumprimentando e dizendo palavras russas de incentivo e parabéns (imaginei isso, mas podia ser também: “toca mais vodka nesse mané, que o cara vai “miar” hoje!”).
Mas quem me conhece, sabe: eu não bebo!!! Zero álcool!!! E estava entrando numa verdadeira “roleta russa” – onde as armas dos coronéis estavam totalmente carregadas!!! E a noite estava começando apenas!!!
Antes que eu sentasse de novo, já estava com a rodela de limão dentro da boca, o suco de tomate na mão esquerda (e o russo falando: “toma, toma logo!”) e na direita um copinho cheio outra vez (me pergunto até agora quem encheu meu segundo copo...).
Pra ser bem sincero, acredito que nesse momento minha alma deve ter abandonado o corpo (ela viu que o barco ia afundar, que a coisa ia ficar preta), pois a partir desse ponto, lembro apenas daquele copinho sempre cheio, do ritual russo de gestos e respiração, do gosto azedo do limão (tem que mastigar, diferente do jeito de tomar tequila – segundo Emili) e do suco de tomate deixando um gosto doce na boca.
Em determinado momento, boiou até um panetone e ovos cozidos (?) na mesa. E fui virando um copo atrás do outro – vodka pura, sem gelo, sem nadinha dentro.
Bem, isso tudo começou às 21hs e terminou às 7 da manhã. Fui o último a ir dormir e não pedi “arrego” (machão to- do); um a um, os Coronéis russos foram tombando no campo de batalha, e eu cada vez mais doidão e bêbado, rindo por qualquer M. em russo que falassem – pra vc ter ideia, comecei a falar em russo também e até a inventar rituais brasileiros por minha conta pra entornar a “mardita”. Quando o último viu que o sol tinha nascido (era o mais beberrão dos 3), se despediu de mim e disse que me chamaria ao meio-dia para o almoço (entendi isso, pois ninguém deles falava inglês).
Dei uma risada e pensei: “pronto, missão cumprida! Além de aguentar o tranco, ainda coloquei eles pra dormir... Duvido que acordem antes do almoço” – conferi minha integridade física (não fui sodomizado) e fui trem afora, “tentar” achar o meu vagão.
Foi aí que me lembrei que era casado, estava viajando pelo mundo de mochila, tinha mulher/filho pra cuidar e que eles deviam estar me esperando - será? em algum lugar da locomotiva! Putz, mas onde? Quem sou eu? Pra onde vou? Como vou? E...por que vou? Podia me deitar ali no corredor mesmo...e esperar ser deportado para o Brasil.
Então, foi quando tudo começou a girar... E aí? Pra frente ou pra trás? Depois de andar o trem inteiro (todos dormiam) e ter entrado numas cabines erradas (todos acordaram), achei Emili e Pedrinho, quietinhos e apagados. Mas fiquei do lado de fora, no corredor, pois nesse momento, o meteoro russo que eu tinha ido procurar em Chelyabisnk havia acabado de explodir dentro da minha cabeça – doía tudo ao mesmo tempo em que nascia um “alien” dentro da minha barriga. Não entrarei em detalhes. Foi o maior porre da minha vida – nunca mais desço para o “playground”, pois disso eu não sei brincar!
Emili e Pedrinho? Enjoaram pelo balanço do trem e se perguntavam onde eu estava a noite toda... eita confusão danada!
(este é o amigo da Alemanha - e sua irmã - que me ajudou a encarar os coronéis russos e suas vodkas, já os meus amigos militares, não me deixaram fotografá-los - motivo de segurança nacional, hehehe)
YEKATERINBURG, chega logo!!!...
Abraços da Família de Mochila!
FDM
Ecaterimburgo, Rússia - Vodka na Transiberiana.
(74º ao 75º dia viajando)
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